Ele se escondeu atrás das minhas pálpebras à procura de abrigo ao mundo hostil lá fora. Se acomodou no calor de minhas lágrimas; quando fecho os olhos, sei que esteve ali o tempo todo à espera, naquele cantinho do olho que a gente chama de cego. É só ele que vejo.
Ele está sempre tão perto, tão perto, mas sem emanar calor na minha pele. Enquanto ele está aqui dentro, devo ser eu que estou presa lá fora, e assim a gente se desencontra, descompassados.
Esse novo nível de cumplicidade me assusta. Ele só existe bem diante dos meus olhos - bem diante mesmo. Será que ele tem medo de que um dia deixe de existir, ou eu que tenho medo de deixá-lo experimentar? Ou vai ver estamos apenas no mesmo plano, agraciados pelo que vemos, sem nos vermos pelas próprias formas.
Já pensei em costurar botões nos olhos, como a Coraline, e selá-los fechados. E talvez você falasse, e fôssemos ao circo juntos! Tudo seria perfeito, e mesmo que fosse sempre noite ninguém precisaria dormir.
Seu fio de vida me mantém suspensa pelos braços, tão perto do chão que tudo quase parece realidade. Estou tangendo o mundo com pés de bailarina, tal a suavidade do movimento; estou apenas a fazer poses por onde passo.
Houve, sim, o dia em que o dono passeou na guia, tão largo o enforcador em sua pele que parecia um robusto enfeite. E o animal alado na outra extremidade transbordava presença de seu pequeno corpo, conduzindo pelos descompassos a dança do desencontro, que só tange o chão.
Houve o dia em que tê-lo na guia era como tê-lo ao alcance dos braços, e hoje não é mais. Hoje tenho que fechar os olhos antes de esticar os braços, imergindo na noite que tão cedo quer amanhecer. E guardar cada lágrima, como que assegurando sua estadia sem escorregar pela face.
Hoje sou muito mais triste por trás de um sorriso.
Lindo. Muito,muito sensível.
ResponderExcluirTristemente e apaixonantemente bonito.
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