30 de jun. de 2010

Quarto de dormir

Ah, não. Esta noite, não bata a minha porta. Deixe-me pensar que desse espaço posso fazer uma casa, e que só cabe a mim a decisão de abrí-la. Deixe-me pensar que os outros cômodos são apenas vizinhos com quem optei por não me relacionar, e que meus sussurros não incomodam ninguém.
Um poeta japonês disse que um homem só pode ser grande no silêncio, pois não pode ser interrompido. Quão pequeno pode ser o homem que irrompe palavras quando ninguém está ouvindo? Quão vã pode ser sua sabedoria? Não faço questão de me pronunciar e ser grande. Quero ser aqui, entre estas quatro paredes das cores que escolhi pintar.
Aqui, silêncio é mera pretensão. Ouço conversas transbordando pelas paredes do meu quarto. No escuro, os sons nele ficam mais tumultuados e imaginativamente obscenos. Acho que todos os sons da casa convergem para cá; as panelas sobre a pia abaixo, o trincar da rede da varanda, a conversa de leito dos meus pais ao lado, alguém que late janela adentro.
Para um jovem, qualquer conversa a meio tom no quarto dos pais lembra o crispar de metais afiados. Amolação. Qualquer decisão tomada por dois cônjugues é mais afiada do que o bater de um martelo. O que é, sim, minimamente razoável: cabe a eles romper o frágil fio da meada das idéias infantis, mais do que ao próprio infante. A este, o constante atrito e enovelar de palavras dos pais geram fagulhas luminosas das paredes, do teto, do baú do armário, do colchão. Qualquer conversa de leito, aos seus olhos, só pode ter poucos assuntos: problemas financeiros, a indisciplina do ouvinte oculto, divórcio.
Sobre quem eles conversam? O que não querem que eu saiba?

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