O gotejar de uma torneira na pia da madrugada que adentra teus sonhos com ritmo e sentido se assemelha ao estalar de uma fogueira enquanto estirado ao chão.
O artista de rua mostra aos meninos como manter as cinco bolinhas no ar, e diz que brincar com fogo é perigoso só com o combustível errado. E que aquilo tudo debaixo daquele semáforo é arte.
A mulher no ônibus ao lado esbraveja porque a estudante não cedeu lugar com seus livros à mulher com uma criança ao colo. Suas palavras agudas não conseguiam perfurar o vidro, mas não era necessário. O rapaz à frente dormia tranquilamente, os assentos preferenciais estavam ocupados e a condução sempre lotada. Ela mesma não se oferecera para segurar a mochila do jovem em pé ao seu lado, e disse que a menina merecia ser esganada para fora do ônibus por tal atrocidade.
Os alunos de trás da sala disseram que o crack é uma droga impossível de se largar, e que as autoridades não deveriam investir na reabilitação do tipo de gente que se envolve com esse narcótico. Mas ontem mesmo, na redação, muitos escreveram que era um absurdo o governo deixar os mais necessitados à mercê, desamparados, enquanto todos os bairros residenciais eram asfaltados. A via para o progresso, não entenda mal, deveria ser ampla para todos caminharem juntos, mas algumas vidas deveriam ser recobertas para permitir que 'todos' pudessem passar.
Esse mundo está todo ao contrário.
Muito bom,Lia!
ResponderExcluirEstava com saudade da minha dose de "Ácido Ascético".