19 de set. de 2010

A realidade é supervalorizada

O gotejar de uma torneira na pia da madrugada que adentra teus sonhos com ritmo e sentido se assemelha ao estalar de uma fogueira enquanto estirado ao chão.
O artista de rua mostra aos meninos como manter as cinco bolinhas no ar, e diz que brincar com fogo é perigoso só com o combustível errado. E que aquilo tudo debaixo daquele semáforo é arte.
A mulher no ônibus ao lado esbraveja porque a estudante não cedeu lugar com seus livros à mulher com uma criança ao colo. Suas palavras agudas não conseguiam perfurar o vidro, mas não era necessário. O rapaz à frente dormia tranquilamente, os assentos preferenciais estavam ocupados e a condução sempre lotada. Ela mesma não se oferecera para segurar a mochila do jovem em pé ao seu lado, e disse que a menina merecia ser esganada para fora do ônibus por tal atrocidade.
Os alunos de trás da sala disseram que o crack é uma droga impossível de se largar, e que as autoridades não deveriam investir na reabilitação do tipo de gente que se envolve com esse narcótico. Mas ontem mesmo, na redação, muitos escreveram que era um absurdo o governo deixar os mais necessitados à mercê, desamparados, enquanto todos os bairros residenciais eram asfaltados. A via para o progresso, não entenda mal, deveria ser ampla para todos caminharem juntos, mas algumas vidas deveriam ser recobertas para permitir que 'todos' pudessem passar.

Esse mundo está todo ao contrário.

Um comentário:

  1. Muito bom,Lia!

    Estava com saudade da minha dose de "Ácido Ascético".

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