8 de jan. de 2011

Ilha de calor

Eu poderia ter me instalado num desses parques cuidadosamente arborizados que a juventude escolhe para seus pique-niques alternativos, e dormido como um sem-teto. Mas me deparar com olhares oblíquos quando estou na minha ilha é algo intolerável; como poderiam vocês ter casas nesse mar de cimento? Como podem achar esse punhado de árvores altas suficientes, e respirar nos dias úteis e corridos? Eu só queria ser um desses eremitas, e levar meu coqueiro nas costas onde pudéssemos ficar sós, na nossa ilha de calor. Deserta, por favor, é só isso que peço. E as novidades que insistem em borbulhar ásperas aos ouvidos continuariam chegando, a vozes altas e a passos largos.
O que dispenso é aquilo que me cruza com infindáveis braços. Fique estático, que eu sei onde encontrar, ora, me deixe em paz! Essas cidades fervorentas me deixam nervosa, porque os cantos de concreto assoviam como chaleiras quando o vento procura passagem; o Sol suspira freon sobre nossas cabeças; e o asfalto geme para seus vizinhos paralelepípedos, peça a eles para que andem mais devagar... e transpira o miasma fétido dos ratos que todo mundo sabe que existe no subsolo, mas prefere não saber.
Marquei São Paulo com um brinco que desceu pelo ralo do banheiro; tenho nojo de me banhar no mar do Rio. Qualquer coisa giratória é menos estúpida do que a torre-restaurante de Seattle.... Tóquio brilha tanto que me recusa um mero flerte com a Lua! E Nova Iorque, tão cara em alta temporada?!
Nunca fui à Paris, Londres e Amsterdam. Temperem quanto quiserem o clima com sazonalidades distoantes, que eu não me convenço. É tudo ilha de calor. E um punhado de verde em cada esquina não vai contornar isso.

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