Mamãe sempre me dizia na porta do supermercado que, se eu me perdesse, eu devia ficar onde estava, pra que ela pudesse me encontrar. "Deixa eu te encontrar, não saia por aí me procurando."
Mas era em lojas de departamento que eu a exauria, deixando que me procurasse entre as araras circulares de roupas. E sempre na fila de pagamento da C&A, eu puxava meu irmão pra dentro desse mundo de tecidos, e fazia deles a cortina do meu próprio show. Meu irmão fazia aquela cara de adulto, e voltava para o mundo adulto de minha mãe, e fazia aquela cara de filho exemplar a acompanhando na fila. Eu adorava vê-la me procurar, mesmo que não fosse tão prazeroso para ela. E odiava a expressão dele, de irmão mais velho, vestindo o rompante da razão.
E foi numa das noites insones dessa semana - cada vez mais intensas, diante da desimportância do horário de despertar - que senti pela primeira vez o chão mexendo embaixo de mim. Lenta, preguiçosamente. Todo o ar, a mobília, as paredes do meu quarto se moviam como uma caixa de sapato, tudo o que nele continha se movia com o conjunto; eu era apenas uma bonequinha de olhos bem abertos, carregada dentro da minha casinha, nas mãos de uma criança.
Até então uma criança serena, até que caí em mim: crianças de verdade não carregam caixas de brinquedos como se esperassem que algo vivo morasse ali dentro; crianças de verdade correm na fila do cinema, dão risadas no teatro, brincam de circo em lojas de departamento...
Ela era uma adorável criança, de vestidinho de rendas branco, com bolinhas verdes e rosas, fitas nos punhos e no cabelo brancas, sapatinho de boneca - correndo com a caixa na mão, trôpega, insensata, mais parecia dançar os passos de uma dança contemporânea qualquer do que alternadamente impor cada uma das pernas para frente! Mais parecia uma delinquente propaganda de biscoito de aveia!
E essa criança dá a volta ao mundo todos os dias carregando a caixa de sapato; minha vida inteira cabe dentro de uma caixa de sapatos nas mãos irresponsáveis de uma criança... Como eu era vulnerável em meu quarto, esperando o rosto gigante de um infante arrancar o telhado e apertar meu corpinho na cama! E se eu morasse na Linha do Equador, essa criança percorreria um espaço maior também no mesmo período de 24h: essa criança se moveria ainda mais rápido! As paredes do meu quarto começam a chacoalhar, o chão parece uma cama elástica jogando tudo para o alto! Alguém pare essa criança!!!
Tudo bem, tudo bem. Esqueça a criança demente. Então eu não preciso viajar o mundo inteiro para sair do lugar, ou fugir de alguma coisa. Mas e se eu quiser ser encontrada, como parar? Como deixar o acaso me encontrar se nunca estou no mesmo lugar?
Ah, que ótimo! Achei tão livre...
ResponderExcluirDiferente o seu post!
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