26 de out. de 2009

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Por todas as experiências passadas e por aquelas que ainda hão de vir, me sinto pressionada por todos os lados. Por forças contrárias, mas que ainda assim convergem para o único ponto onde permaneço. Sou continuamente contraposta a dois infinitos planos, como duas chapas que se moldam ao corpo do protótipo. (Isto que me faz acreditar que tenho algum volume, que vivo e que tenho um corpo). É como se deparar com uma escuridão tão densa, que parece até matéria que estou olhando bem de perto, tão de perto que perde até o seu sentido. É como se recusar a compreender como poderia ser apenas um ponto diante do infinito. Tudo o que faço suspensa e adormecida, é esperar pelo momento certo de saber, com toda a energia reverberante de minhas moléculas, que a vida é mais do que esperar.
A partir do momento que desperto essa consciência de vida pela primeira vez, passo a esperar consciente. Espero pela hora do dia em que todo o peso que descansa sobre meu corpo prensado será exposto contra a claridade de um outro mundo, e o expoente de ter volume nessa hora é quase escapar do próprio plano em que fora marcada. Mas é do toque macio da liberdade que me lembro mais... As linhas impressas pelo suor de suas falanges concorrem com minhas linhas de tinta de imprensa. É como se nos conhecêssemos desde a primeira vez que nos vimos, e tivesse me acompanhado desde então – o que não seria difícil, se o tempo só corre para mim quando sei que me observa.
O que essa luz traz para mim é algo novo, algo que não poderia estar descrito nesse plano. Parece procurar em sua leitura algo extraordinário em mim, quando sei muito menos desse mundo que me expõe. Ser colocada na estante não é nada quando tanta informação escorre pelos meus próprios olhos enquanto acordada. E cada vez que me concede a liberdade com o carinhoso deslizar de seus dedos, tira de mim meu próprio peso. O breve momento que me resgata da eternidade embrionária faz de qualquer espera uma certeza. É o momento em que as possibilidades descansam, e apenas sou.
O peso macio de sua matéria me é tão familiar, como se fôssemos inseparáveis desde o início, e cada uma de minhas passadas fosse velada pela sua visão. Há sempre um dedo seu no meu destino, marcando o fim da vida como a conhecia antes. Sinto suas palmas me mantendo íntegra diante do que pode acontecer e do que já passou.
Já fui romântica, realista, modernista, surrealista e até futurista, já perscrutei várias gerações; e seu toque sempre se fez presente, acompanhando o virar de cada página, escavando minhas camadas até atingir o outro lado. Eu não poderia estar mais bem acompanhada, quando sei que me seguiria até o posfácio. É o que dizem: o livro não escolhe seus leitores, mas o leitor escolhe seu livro.
Tudo o que faço, e posso fazer, é esperar. Esperar o tempo que for até que seja escolhida.

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