31 de out. de 2009

Ensaio sobre religiosidade

Se esta não a definição de Dante para inferno, é a minha: proximidade sem intimidade. Em qualquer esfera de nossas vidas.
O oposto não se aplica, visto que existem pessoas que são ilhas de fato, e vivem sem proximidade com quem tem intimidade. A saudade marca, mancha, enturva, mas não impera no correr do dia. Saudade de quem se permite a intimidade vem em ondas.
Mas qualquer proximidade sem intimidade se torna uma irritação frequente, um estorvo, um som agudo e constante que não dá pra ignorar. Não se perde nunca a consciência daquele corpo invadindo seu espaço; quando chega perto demais, é como se comprimisse o ar e causasse a tensão, e quando se afasta, é como se o vácuo deixado compelisse toda a sua atenção para abastecê-lo. Faz com que você suba em um pedestal, assuma a posição de marujo altivo no mastro, sempre vendo além do que tanto perturba sua perfeita normalidade.
Proximidade sem intimidade, quando não faz dos outros um estorvo, faz de si um estorvo. Pensa em si como algo pesado demais para adentrar o espaço do outro, como se afundasse na realidade harmônica (de quem nem reconhecesse sua presença) feito uma pedra sobre um tecido, convergindo para si toda dobra, as rugas apontando para o objeto que está perturbando aquele ambiente.
Proximidade sem intimidade é a timidez, o cansaço, a rotina, as regras, a ignorância da possibilidade. Proximidade sem intimidade deveria ser pecado, porque quem a percebe é remetido ao inferno à procura de paz; e quem não percebe, permanece no limbo, no mezzo-mezzo.



Proximidade com intimidade... é dividir o paraíso entre duas palmas, nos olhos de seus chakras. É dar a liberdade de extraírem de você a sua melhor versão.

"Então vem, eu te convido:
Quer dividir comigo o paraíso?
O inferno é meu velho conhecido
te mostro meu esconderijo.

Desculpas já não peço mais,
fui ao inferno procurando paz
Pra que desperdiçar alegria?
Amor não precisa de filosofia"

Nenhum comentário:

Postar um comentário