Hoje sou só tristeza. Digamos que Milli-Q, se destilada ainda fôr impura pra descrever. Tristeza bruta, rústica, que não se escolhe nem o momento, nem a intensidade para manifestá-la. E ninguém nunca poderia adivinhar quando passa pelo meu pensamento, ninguém vê de verdade os lembretes que a tristeza deixa para trás. Sabe que só eu sei reconhecê-los.
Me assalta em ondas: mais triste ou menos triste, nunca me deixa só, como devia ser. As lágrimas parecem mais doces, tão doce seu sal que azeda o rosto, em contorções involuntárias. Tristeza é espontaneidade.
Eu nunca senti tristeza ntão pura, foi sempre um misto de dor, luto, ódio. Eu queria que o mundo parasse para que eu pudesse passar com minha mistura, convenientemente transtornada. Eu não sabia o que era silêncio em reverência a algo maior; só exigia dos passantes a devida homenagem - não menos devidas diante da minha ingenuidade.
A dor é constante, impossível de esquecer, como o assovio que precede a bomba atômica, o alarme, o apito.
Mas hoje sou pura tristeza, e cansaço. Não me peçam o contrário, nem mais, nem menos. Nem um sorriso amargo, nem pequenas vontades. Não haverão porquês, só a contraditória vontade de não cair em clichê.
"E o santeiro milagreiro
prevê a dor de terceiros
E diz que a vida é feita de ilusão
Hoje o seu pesar
cintila nos varais
Usou as sete vidas e não foi feliz jamais
Toda a imensidão
passou pela vida e foi cair na solidão
Agora vamos ter os girassóis do fim do ano
e o calor vem desumano..."
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