6 de fev. de 2011

Coração de Papel

Meu reino por seu amor. Não sei se negá-lo é mesquinharia sua ou eu que não sei pechinchar. Contrato é aquele papel que depois de anos a gente amassa e joga fora; nunca fez muito sentido pra mim ter as coisas escritas. Mas você vai me render um bom poema, dia desses, que vai ser perpetuado pelo mundo virtual, e não pelo papel. E ele logo se desgarrará de suas origens, reino a fora. Por isso, tenho que ser mãe, pai e irmão dos meus poemas.
Meu reino é um feudo de papel, abrigando um castelo de cartas que se desmantela a cada ventania, e se reergue com os mesmos escombros; acredito (quase que domada por aquela ingenuidade utópica) na complacência do Senhor dos Ventos. Que da próxima vez que vier aqui dentro me blefar aos ouvidos, me poupará da sua sinceridade às baforadas. Ou vai ver alguma princesinha encarceirada lá no âmago desse castelo suspirasse demais, vai saber?
Um dia desses também faço Bodas de Papel - não com o seu amor, Senhor dos Ventos... -  com a mesma insatisfação que me enervava um ano atrás. Afinal, como pode a vida ser apenas isto, um desfile de vaidades, dores e prazeres etéreos?
Aristóteles estava errado, tudo no mundo é de vento, papel e luz. Não sei bem por que luz. Mas é. Se meu reino é de papel, há de ser tingido por todo o leque de aquarela Faber Castell. E ser dobrável na forma de aviãozinho sem ponta para fugir para outro lugar em tempestades mais sérias. É o vento que tira as coisas do lugar; o papel é o que torna esse meu reino concreto e real; e a luz... traz à tona tudo o que é etéreo. E, claro, as cores desse meu feudo.
Aqui não há vassalagem, guerra, fome, doença, pobreza. Porque todas essas coisas são proibidas no papel, e meu reino é do jeito que eu quiser. E se acontecer de eu querer as coisas erradas, eu me desdobro em planador de novo, até que eu caia fora dessa atmosfera.
Se eu fosse o Senhor dos Ventos, eu dava mais valor pras coisas de papel. São aquelas que Ele pode carregar e que com certeza foram feitas pra isso. É só não ligar muito pras coisas escritas nelas, são tudo fofoca de escritório!

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