17 de nov. de 2009

Jantar

Pratos dançavam de uma mão a outra, travessas eram recipientes que continham toda a sua atenção. A seu ver, sentar a mesa com a família era como dar início a uma valsa com a louça. Condimentos respingam à mesa, cotovelos se encontram violentamente. Alguém se levanta e puxa o pingente para ligar o ventilador. A televisão chia, e alguém mexe na antena. A pressa suja a concha do arroz com o caldo do feijão.
Fala de boca cheia, cospe palavras, engole insultos. Fumegam seus olhos com o calor da panela de pressão. Mede a gula pelo prato dos outros: o filho está faminto depois do trabalho, a filha não come direito.
Quando a valsa enfim acaba, ele empurra o banco para trás, se debruça sobre o prato. A salada acaba antes de chegar ao lado oposto da mesa, mas ainda assim critica: "essa menina tá muito nojenta, não come nada, parece até filha de burguês!"
Os talheres riscam os pratos, a TV ainda chuvisca, a cachorra se acomoda aos pés do dono. Todos não tiram os olhos de seus pratos. A comida nem está tão deliciosa assim. A mãe censura o marido, com a barba suja de maionese.
"Deixa ele achar que todo infarto é fulminante, mãe. Que morrendo cedo vai se poupar de todas as angústias da vida."
Os mosquitos estalavam na lâmpada acima, e caíam no prato; o bafo da cachorra abaixo espantava os pernilongos. Os talheres tilintaram uma última vez, os punhos descansaram à mesa, ainda segurando garfo e faca.
Silêncio se fez na mesa de jantar. Por pouco tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário