7 de nov. de 2009

Pianíssimo

Sempre me interessei mais pelo que se compreende entre as palavras do que nas palavras em si. Às vezes escrever se torna para mim um passatempo tão cru que me sinto egoísta por esconder o que está na minha mente, ainda que seja por não consiga explicar. Eu queria mesmo poder dar isso a quem lesse, mas tem certas coisas que explanações e ensaios não bastariam, só existem diante dos próprios olhos.
Estou sempre pensando no que não posso detalhar. Ao invés de exprimir, espremo significados entre as linhas, mesmo sabendo que os leitores percorrem-nas com sonâmbulos olhos, "à procura da metáfora perfeita" para o auto-reconhecimento.
Escrever assim faz com que me sinta egoísta, daquele jeito discreto de se arrepender depois de tomar o tempo de um bom amigo com um torrencial desabafo. Porque no fundo, só você se importa. Os outros viram a página.
Eu queria explicar as intenções que se pescam no silêncio, a consciência de um outro olhar sem virar o pescoço, as pressões que reprimem as atitudes inusitadas.
Eu queria mesmo era uma trilha sonora, para assoviar o óbvio no ouvido de quem ainda não notou o que estou pensando. Por mais "opaca" que meus amigos digam que sou.
Quando comecei a estudar música, eu estava buscando um sentido para os sentimentos indizíveis. De onde vinham, como poderia alguém "palpá-los". Eu queria que alguém dissesse por mim o que na minha boca adormecia, uma voz uníssona a minha em intensidade e sinceridade. Eu me lembro apenas que a primeira vez que o toquei eu fiquei sem fala. Meu professor sorria maduramente, mais porque sabia o que ocorria do que poderia explicar. Eu demorei um pouco a entender, meu repertório era mais monossílabo do que uníssono. Mas enfim encontrei.
O piano não era como um namorado que se poderia levar para qualquer canto, na frente de quem quisesse escutar. Ele era mais como meu amante, que se encontra no lugar de sempre, um quartinho reservado nos fundos. Lá teríamos todo o conforto do mundo, ninguém nos descobriria, nossa privacidade era respeitada. Os dias passavam insossos, nessa época ainda não-insones. Mas a vontade de vê-lo bateria, e eu correria de onde estivesse para encontrá-lo em segredo, para ouví-lo sussurrar sob meus dedos. Nós estávamos ali, preservados, e não precisávamos de mais ninguém para nos acompanhar.
Tocar piano é como acariciar quem se ama. Apenas o toque não lhe inspira sinceridade, soa mais como um soneto decorado. Ou no meu caso, a sequência de teclas tinham de ser tão exatas que eu mal escutava o que dizia, como ler um livro palavra por palavra saltando os espaços entre estas. Não adianta cerrar a face, você vai sorrir, gemer, fazer feias caretas quando conseguir escutar o que secretamente se arquiteta sob suas mãos. Cada vez vai ser a primeira, e a paixão se renovará no enovelar dos dedos.
O pedal te dá aquela sensação de poder reverberante , de posse sobre o outro, enquanto cada fio de vida tensionado dentro dele pinça o coração, de dó, com medo de que seus dedos podem estar torturando-o. Cada stacatto parece uma estocada no peito. Daí, você toca lentamente, devagar, baixinho, e quando abrir os olhos, verás o próprio rosto olhando-o de frente, sereno, feliz, único. As olheiras terão clareado como o dia, e os olhos cansados estarão relaxados (e aí sim você saberá a diferença).
Tem coisas que só se acredita vendo, outras que só se explica diante dos olhos. Agora eu me lembro, qual a diferença.

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