10 de jul. de 2010

Pouquidade



Então ser jovem é isso? 
Se lançar ao mar com ímpeto, ser tragado pelas ondas até alcançar algum pedaço de terra? 
Eu vejo as coisas com muito mais clareza, mas me faltar arbítrio para dar a palavra final. Mais do que isso! Tenho mais pensamentos do que sou capaz de explicar! Mas a intransponível carência de vocabulário insiste em culminar em uma palavra insurgente, só para não afogar o argumento. 
Banalizo a língua oficial pois me é estranho o dialeto materno.
O jovem tem o dever de ser feliz, de estufar-se quando quiserem perfurar-lhe no peito um poço de alegria.
Um adulto exige de meu corpo toda a sensualidade da novidade, e criativas formulações do mais libidinoso pecado. Um amigo de família exige que eu lhe explane os mais fantásticos planos de fuga e de tempestuosa liberdade, que lhe conte sobre meus impossíveis desejos materiais. Um parente próximo espera que eu crie gosto pelo ardiloso trabalho, que afine pretensiosamente as garras de minha vontade e, principalmente, que eu me preencha de sonhos possíveis.
Um adulto me fita longamente, mas não sei para o que exatamente está olhando. As crianças de outrora se aconchegam ao meu redor predatoriamente, como se esperassem fagocitar a vivacidade da juventude. E tamanho é gosto que sentem por algo tão irrisório, algo que se desdobra no meu colo, que acho que na verdade nunca tive em mãos de verdade: a bajulativa esperança por algo inexato, mas vindouro. Em geral, esperam que uma luz virginal salte de minha garganta e encha-lhes os olhos, que meu corpo contido se exploda em mil confetes coloridos, que a inocência de meus poucos anos contagie-os de alegria imbecil e imprestável.
Jovem algum possui o direito de ser adolescente. Porque toda vez que alguém olha de frente para o futuro espera que, pro caso de não ser algo melhor, pelo menos entretenha.

Um comentário:

  1. Quando olho as coisas através desse ponto de visto,tenho a sensação de já ter nascido com 70 anos.

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