21 de dez. de 2011



Fim.

Paulo Mendes Campos

"A lógica com que procurava salvar do naufrágio o meu passado levou-me ao limite extremo do abismo lógico. Singular é que o presente só me interessava pela sua possibilidade de converter-se em passado, e assim, aparentemente, o exercício de viver só poderia ser para mim um cansativo comércio com a morte."


"Confesso que mesmo o futuro, o que ainda não se transfigurou em saudade, pesava-me como se fosse vida desperdiçada. (...) Porque o excesso de consciência é como o excesso de luz; o fulgor obsessivo do presente fatiga alguns espíritos."


"Admito no entanto que às vezes o presente já tenha um suavidade de lembrança."




Daqui: Porque o excesso de consciência e como

7 de dez. de 2011

Conclusão

Conclusão: mas quem vai voltar pra casa se sentindo uma merda é você. E nunca foi diferente, porque você sempre...

Não, eu nunca.

20 de nov. de 2011

Acordei assim hoje, querendo aprender alguma coisa importante. Às vezes a gente se dá conta que o tempo passa milimetrado, com cadência, e é como uma mala que só cabem dois ternos e dois sapatos; mas daí existem coisas que a gente sente falta, que fazem sentir como milhares de ternos numa mesma mala, antes que a vida volte a ser uma caixa, porque não importa pelo quê se substitua os 2 ternos e os sapatos é só isso que lhe cabe. Sabe, a gente faz escolhas, do que põe na mala, sabe, e tudo o que fica de fora passa a nos odiar, mas tem vezes que parece que tudo volta a caber numa mesma mala, pra voltar a te assombrar, pra acontecer tudo ao mesmo tempo, pra preencher os centímetros quadrados folgados entre os fechos.
É a plasticidade de um cérebro sobreaquecido, de temperamento, de recuperação quando as ligas se rompem e se reencaixam sem ordem. Daí eu acordei, e sentindo falta das coisas que me quebrantavam a noção de tempo, pensei que deveria aprender algo de muito importante escrito nos livros, porque até o que é fixo esconde, de ciúmes, a sua elasticidade...
Sei lá, sabe, parece que antes o tempo passava barulhento... agora é tão silencioso, mas grita dentro da cabeça, faz como que de dentro pra fora o cuco na cuca, e de repente não é o relógio que faz som, mas a gente mesmo que não tem cadência, e conta o tempo e não os próprios compassos. Eu podia parar tempo com um clique, introduzir um adendo meu naquele momento que sequei na foto. Com um clique, sem ritmo. E agora, o tempo se faz contar silenciosamente, é o que se sente por dentro.

16 de out. de 2011

Que maravilha, nem tudo que vejo precisa ser escrito...

11 de set. de 2011

Ai, tanta coisa publicada e nada me excita nesses blogs de dinossauros, nesses livros de fraldas. Se um parece que tenta mais evoluir de mídia, o outro parece desmerecê-la. E vice-versa.
Não que eu fosse digna de qualquer um desses papéis, isso não...

5 de set. de 2011

Sobre beleza, medicina, morte e retas

Pra que servem as pessoas que não atravessam a encruzilhada, os interrompidos, os abandonados, os que não conseguem chegar? O que eles complementam nos outros não deveria ser necessariamente uma função, quando todo mundo corre em paralelo até estancar o passo. Não existem retas concorrentes, uma reta há de ser paralela e não à toa; algo não acontece a você, leitor, porque alguém passou por aqui, mas algo aconteceu, e alguém passou por aqui.
Olha, você consegue encarar a beleza de sua profissão, se esta só existe por causa da enfermidade de alguém? A cura só existe porque há doença. Que existe porque alguém nota uma característica como anormal. 
Mas é só isso que você faz? Balanço de cura e doença é sua beleza? Não dá, ninguém aguenta. Sua profissão exige beleza, e há enfermidade; sua profissão há de ser bela, apesar da doença. 
Só é bonito se for a cura? 
Só se é belo se chega ao fim?
Pra que serve ser belo?

17 de ago. de 2011

Não sinto saudades. Penso que se pudesse lhe falar só mais uma vez, sabendo da parte do 'nunca mais para sempre', tagarelaríamos sobre os mesmos eternos assuntos de sempre, e como nada mudou, e onde estão os fulanos. Falo sozinha como se estivesse lhe contando as últimas, e posso imaginar perfeitamente sua reação, sua voz, sua feição de incredulidade. Posso inclusive imaginar o que me traria de novo e divertido. Me convidaria mais uma vez para ir com ela pra Araruama, aturar a família em casa ou o tédio das férias. Me diria como são o máximo os veteranos e as festas.
Nada mudou, somos os mesmos, jovens e bonitos, com futuros brilhantes e invejáveis. Mas ela não, ela agora é eterna, e por conta disso, essa falsa consciência estancou em mim e eis o que dela sobrou: que nada mudou, e não há nada a ser invejado nisso.

30 de jul. de 2011

Queria que o tempo passasse mais devagar, a gente já tem tão pouco tempo, e ter pressa não está ajudando ninguém a realizar nada. Tanta coisa se perde no caminho, que eu já não tenho mais tempo pra retomar.

23 de jul. de 2011

É de uma tristeza sem nome
a gente põe a mão sem tocar o fundo
a gente põe a mão e gela, e treme
e sente roçar pertinho do pescoço
uma sugestão impensável:
que tal ligar pra ela?

É de uma tristeza que vicia
uma tristeza vulgar
tamanha de malícia
um troço sem contornos
a gente nem sabe onde pisa
mas quer caminhar,
caminhar

pra onde, meu deus?
eu nem planos tinha, e era mais fácil
e agora que sempre os tive,
eu me recordo de cada promessa
de cada abraço, de cada piscadela

Onde é que essa tristeza acaba, meu deus?
Onde é seguro pisar?

17 de jul. de 2011

Menino, te botaram no mundo à fórceps. A órbita do seu planeta ninguém descreve por fórmulas, nem admira de luneta. Agora tem só 4 portas e o que compreende lá dentro.
Você está condicionado a ver o lado de fora refratado pelo pára-brisa, tem uma rota já pré-definida, e uma sigla pelo nome. Sabe que nem assim vai chegar a tempo, ou notar o que aconteceu?
O pneu furou, o dia beirava os 40º, o som ambiente ensurdecia, o meio-fio mal-cheiroso. Ao longe, um senhor feio fez sinal pro ônibus que não parou.
Entendo que ninguém nunca lhe perguntou, foi um parto doloroso?
Trouxe o estepe?

11 de jul. de 2011

Eu aborto. Aborto porque não há outro jeito; entre 400 e 500 possíveis pessoas por vida. E imagino que há um deus sádico para querer me reencarnar e permitir que eu continue cometendo esses crimes. Cada metade dessas pessoas poderia ser melhor do que eu jamais fui, e alguém insiste em me reencarnar, para a cada vida ter o espírito cortado por esse pensamento.
Imagino que Deus se sinta incompleto, pois se encarna pessoas só para assistí-las pecar é só porque não o pode. Imagino que se Deus tivesse se criado as coisas seriam diferentes, e eu não precisaria abortar todo mês; o filho que me fosse digno nasceria apenas, da graça divina. Deus não quer que eu me sinta abençoada, mas adora que eu acredite que ainda posso ser. Não faz sentido! Poderia simplesmente abençoar todo mundo que eu conheço, e acreditaria facilmente, me derreteria em preces! Deus é folgado; ou é folgado ou é cruel.
Queria só ver Deus perder pedaços de si, partes maiores que o todo, e pedir perdão todo mês por cada metade de uma pessoa que poderia ter sido.

6 de jul. de 2011

Alguma sensação querendo voltar. O que digo pra ela? que volte mais tarde.
Fosse alguns dias atrás teria me domado com um suborno de auto-satisfação, e se instalaria nos super-cílios, no canto dos lábios, e bastaria para que eu tivesse a expressão entregue à idéia de uma criança sem doce. Olha, não sei o que acontece, só sei que não me toma o dia, só a atenção; o que me protege hoje do que me arrebatava?
É uma sensação de insatisfação, de abertura pro mundo, de ralar joelhos e surrar sapatos. Uma coisa de levar a câmera pra passear, escrever sem caneta, ler um livro só pela pose... quem vai me julgar por isso? Era arrebatador, de largar o que precisasse ser feito! E eu fiz, muitas vezes o fiz, mas só tenho a sensação que dei mais voltas pra chegar no mesmo lugar que teria chego austeramente.
Não dá dó desperdiçar tanta sola?
E aí solidifiquei, fiquei austera, com visitas frequentes de leveza ao portão; e inspirações mascarando o contexto ao pé do ouvido. Se eu atender, o que mais pode entrar? quem mais poderia entrar?

1 de jul. de 2011

Aposentadoria

E a câmera lá, morta, entubada em cima da cama e piscando suas luzinhas enfermas.
Esperando-a ressuscitar do coma que a bateria viciada a submeteu, ou do Alzheimer que o cartão de memória deixou quando fora ejetado num bueiro.
É. É assim que é. E a gente chega até a pensar que somos nós quem tiramos as fotos.

27 de jun. de 2011

Sobre budismo e raios

É fácil quedar toda uma teoria comprovando um único erro; porque de tão acostumado aos dogmas, o sujeito queda-se mesmo ao desejo de ser visto como perspicaz, enquanto enxergar a teoria em questão como um todo ou aplicar-lhe uma alternativa parece muito mais fastidioso.
É o que aprecio no Budismo: não há dogmas, tudo há de ser comprovado - não no sentido empírico, mas no degustativo. Claro que ensinamentos mofam, que o ceticismo corre em direção contrária ao tempo; há de surgir um novo buda, para uma nova era, e dizer o que importa para aquele novo momento e seu novo homem.
Mas ora, enfim, só encarando ensinamentos amplos como dogmas que encontra-se facilidade em localizar discursos refutadores brilhantes e inovadores. E ainda que fossem todos resguardados do mofo e do ceticismo, é incrível quanto tempo leva para que cada um desses pensamentos sejam elaborados. Não são os gênios de seu tempo, mas raios esparsos em milênios de existência; são aleatórios e por acaso. Podem dois raios caírem no mesmo lugar, sim, mas ainda melhor do que uma mesma pessoa escrever sobre todas as coisas - ainda que genialmente - talvez fossem raios caírem regularmente, em corpos diferentes; para que novas eras pudessem chegar mais cedo.
Somente assim percebo o tempo como geológico, e como dilui a importância de tudo isso - que são só alguns raios. Não fossem os dogmas, e talvez o tempo rolasse sem que isso fosse por conta de algum dito cujo.

24 de jun. de 2011

Sobre leões e reticências

Todo dia cai um ponto em nossa história, tem cheiro de fim. É como matar um leão por dia, e não é; todo dia ele perfura um pouco mais adentro da carne, e me permeia ao que eu não devia pensar, o que eu não quero falar, o que eu não queria rever quando gotejo entregue e magra. É como se todo dia o leão vencesse um pouco mais.
E amanhã vai ser um novo início, como sempre são os dias seguintes, e eu tenho que encontrar uma forma de me manter nesse jogo. Tenho que ser criativa; não sei exatamente o que se encerra dentro de cada frase, mas cada vez que lhe cai um ponto, eu tenho que já estar pensando na próxima. Nossa história não pode parar.
O andar é lascivo, ao decorrer do dia é preguiçoso, mas o leão nunca retira suas batalhas ganhas. É só que um novo dia é uma nova batalha, e o que foi, já foi. Nunca termina em reticências; ou se ganha, ou se perde, não pode haver uma abertura ampla pra que tomes a conclusão que quiser. É assim que tem de ser: palavra ante ponto, palavra ante ponto.
Acho que a questão nem é ser devorada dia após dia, mas nunca deixar que chegue às reticências. Tenho é medo das conclusões a que pode chegar.

Rua das Pretas - No Fim

18 de jun. de 2011

Des-pé

Confunde-se. Fruta que cai do pé está estragada, não madura. Cai, tropeça, e rola rola rola porque criar limo é um desprestígio social. Rola redonda e macia, rola gigante e pesada sobre as colônias de alguém. Todo mundo no mundo é dono d'algum lugar do chão, e às vezes penso que posso ser essa bola de demolição pra alguém, mesmo que só rolando de passagem.
Já a fruta madura é sempre colhida a tempo, beliscada ainda na árvore por passarinhos e morcegos, que não sujam as mãos com isso. É um privilégio se saber madura e poder olhar tudo de tão alto. E se pensa que quanto mais olhar, mais vai apreender. Mas tão logo cai, e saber de tudo não lhe adianta nada. Devem ter coisas que é melhor não saber, devem ter pássaros que levam frutas para longe; mas o que me conforta é que existem sementes pelas quais vale a pena cair do pé.


Eu gosto do que escrevo. Sentia falta disso.

1 de jun. de 2011

Festa II

Ué,
por que traz
um copo vazio
tão perto do corpo?

Seu brinde é
uma moléstia aos ouvidos,
esmola de atenção;
Encho-te o recipiente
sem manchar a roupa
Logo vi! me esperava
pra que diluísse seu tédio
pra falar de uma festa outra
do seu grupo, desses troca-trocas
de casais, análise combinatória.

Ela dá mobilidade ao cenário
Tem gente que é assim,
ninguém se dá conta
se ficou até o final, o meio
ou se ficou trancada no banheiro
E ela era assim, aguda
incisa sem necessidade
uma figurante memorável
uma das primeiras dos
assassinos de romance,
Ela era uma vítima,
vítima de seu meio,
meio mutante.

25 de mai. de 2011

Festa

Que fazia ela ali, de pé a um canto onde o som pudesse ainda reverberar? Bebericava o copo vazio e assim evitava a iminente exigência por um comentário seu; esmolaria trocados se estendesse o braço - com esse vestido de pedir elogios, talvez esmolasse por pequenas doses de admiração. Circulava o ambiente de um lado a outro como que para se mostrar entretida com alguma coisa e diluir seu tédio, ou diluir a negativa atenção que seu tédio poderia atrair numa festa como aquela. Há pessoas que são convidadas para dar mobilidade ao cenário, e simplesmente isso; nunca ficam presas muito tempo num mesmo círculo de conversa. A figuração não fala, sequer consegue alcançar a mesa para reabastecer o copo. Era o tipo de confraternização em que todos os convidados se conhecem, se apresentam entre si, e sobrevoam círculos alheios como pássaros acasalando na praia, a procura de novos membros para circunscrever na comunidade.
Os murmurinhos e brincadeiras preenchiam os corredores da casa até os quartos e o portão. Quanto mais longe da luz da sala, mais esparsos e menores os grupos reunidos; mais baixo e mais vagamente conversavam. E menos tímidos também, cuspindo palavras em bocas alheias, que só possuíam como estratégia de defesa concordar para voltar logo para a sala iluminada e barulhenta. Novos convidados chegavam com mais bebida, e arrastando para dentro as ovelhas atraídas para longe do rebanho.
Mas ela, cadê? Abandonara o copo vazio na pia do banheiro, o único vestígio que deixou para trás. Em que preciso momento deixou a festa; será que acompanhada com a mais indelicada presença, com o mais notável orador, ou silenciosamente desacompanhada? Esmolada ou molestada por uma presença, uma conversa, um comentário curvo... posso imaginar a urgência dessa aparição emergindo de seu tédio, espalhando palavras quebradas pela sua boca.
Estavam todos animados, mesmo quem não pertencesse a nenhum dos círculos presentes. O conteúdo e o formato do copo dizia muito sobre o tipo de convidados a ser aguardado, independentemente de suas vestes. E mesmo assim, me pergunto o que fazia ela ali e que fim levou aquela noite.

20 de mai. de 2011

Autura

Vontade de jogar fora um pouco de tudo. Livros e apostilas, faculdade e curso de línguas, uma ou outra possibilidade de intercâmbio. Chão e casa, teto e telhado, gato e sapatos. Pais, dinheiro, amor, amigos e programas de fim de semana. Blog e blogueiros, fotos, cds gravados e playlists.
Eu não vim pregar o desapego não, não faço idéia do que estou dizendo. Mas o que era mesmo pra eu estar fazendo com tudo isso, apostar? Curtir, viver, amar, gastar, recriar, guardar, enterrar, amargar até maturar? Sei lá eu...
Pra que que me deram tudo isso se eu não tenho onde pôr? Onde que vou guardar tanta tranqueira que já matei tantas vezes e continua a florescer no meu quarto tão logo abro a porta, e do meu cheiro sei que ali era meu lugar ou até então eu pensava que era. Não tá no momento de colher ainda, conquanto me adormece o braço para ceifar a safra. Chute no ar, sei que salgaram esse chão; quanto de seu sal são lágrimas de portugueses e nem um pouco minhas? é justo chorar a esse altura? Ah, a vertigem dessa autura... Vinícius disse aos gritos se mede um abismo, mas essa autura, essa autonomia, tem metragem no silêncio.